Fotografia astronómica de campo amplo da Grande Nebulosa de Orionte (M42), exibindo a estrutura nebulosa rosada e circular concentrada no centro do plano, com o núcleo brilhante bem definido e a nebulosa vizinha M43, rodeadas por um vasto campo pontilhado de estrelas de fundo sobre o éter negro.

A Forja de Osíris II

Há um perigo inerente em aproximar demasiado a visão: ficamos cegos para o contexto.

No nosso primeiro mergulho na Forja, fomos hipnotizados pelo coração da fornalha. O foco estava na Vontade pura, na fúria ultravioleta do Trapézio, na lâmina da espada que rasga as trevas. Mas o Fogo, por si só, não cria; ele apenas queima e transmuta. Para que a Grande Obra ganhe forma, a energia tem de arrefecer e encontrar o espaço que a acolhe.

O que este segundo Fragmento nos revela (capturado ao recuar um passo no santuário, abrindo o campo de visão) não é a explosão, mas o eco.

Ao afastarmos o olhar do centro opressor, a violência cede lugar à majestade da periferia. Olhem para as vastas extensões de poeira escura, cinzenta e acastanhada, que abraçam o halo rosado. Aquilo não é o vazio. É o fôlego exalado da Criação. Na Alquimia, depois do choque implacável do Enxofre (o fogo activo), a matéria tem de se expandir e repousar na passividade do Ar e da Água.

Esta é a respiração do Abismo. O Pneuma cósmico.

*   *   *

Se o núcleo incandescente de M42 é o princípio masculino, a força de Osíris em combustão e desmembramento, estas nuvens periféricas e diáfanas que agora se tornam visíveis são o Véu de Ísis. É a matriz escura e receptiva. Ela recolhe a luz e a matéria atiradas da fornalha para lhes dar uma ordem mais vasta e silenciosa.

Reparem como até a pequena M43, a nebulosa “Gota” que se separa acima da estrutura principal, surge aqui não como um mero apêndice, mas como uma semente autónoma, embalada na poeira negra, protegida do tirano luminoso que domina o centro.

Foram precisas duzentas e vinte e quatro captações do olhar, cada uma um fôlego contido de dez segundos, para destilar e fixar este véu no ecrã. Um processo lento de acumulação onde a escuridão revelou ter tanta textura como a própria luz.

Este Fragmento completa o ensinamento da Espada. Mostra-nos que decifrar o Cosmos exige um duplo movimento: primeiro, a coragem de olhar directamente para o Fogo que consome; depois, a sabedoria de dar um passo atrás para contemplar as sombras que ele projecta no Vazio. O Mistério só se resolve quando o núcleo e o véu são compreendidos como uma só respiração.


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