O firmamento não é apenas um vasto repositório de silêncio e poeira inerte; é, acima de tudo, o palco de fúrias ancestrais e contidas. Quando a objectiva rasga a aparente tranquilidade do breu nocturno, deparamo-nos frequentemente com entidades de luz que parecem desafiar a própria inércia do vácuo. Na fronteira difusa e densa entre as constelações de Cefeu e do Lagarto, longe dos olhares desatentos, a nossa lente reteve pacientemente, ao longo de quatro noites de vigília contínua, o alento de uma dessas formidáveis feras cósmicas: a nebulosa catalogada cientificamente como SH2-132, a que os observadores mortais chamam a Nebulosa do Leão.
Esta captação, executada na sua totalidade sob a estrita vigilância do filtro de banda dupla, revela com uma precisão cirúrgica a anatomia oculta de um verdadeiro predador estelar. Não estamos perante uma forja unidimensional ou um berçário sereno, mas sim perante um colossal campo de batalha cromático onde dois elementos primordiais se debatem perpetuamente. O ventre e as mandíbulas da besta ardem num vermelho visceral, denso e violento, trata-se do hidrogénio incandescente, fustigado, varrido e esculpido pelos ventos solares e pela radiação implacável das gigantes azuis e das ferozes estrelas do tipo Wolf-Rayet que habitam e aterrorizam o seu núcleo. Estas estrelas titânicas, donas de uma massa colossal e de vidas efémeras, sopram a matéria circundante para o abismo, moldando, no seu processo de agonia, a espinha dorsal deste leão de fogo.
No entanto, o que confere a este alvo a sua assinatura verdadeiramente magistral não é a brutalidade do fogo, mas a sua coroa. A juba que se desfaz e se estende pelo espaço adjacente assume uma tonalidade etérea, um azul anil quase fantasmagórico. É a presença inconfundível do oxigénio duplamente ionizado, uma neblina fria e diáfana que envolve e arrefece o calor abrasador do centro, criando a ilusão perfeita de uma respiração cristalina que se expande, num suspiro interminável, pelo vácuo escuro. A besta cósmica não apenas arde nas suas próprias entranhas; ela respira, projectando o seu alento azulado sobre o denso mar de estrelas que a emolduram.
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Na Tradição Velada, o Leão Vermelho ergue-se como um dos símbolos supremos e mais temidos da Arte Alquímica. Ele representa a Prima Matéria na sua fase de máxima exaltação, a força impositiva e activa, o enxofre filosófico que tem de ser, inevitavelmente, domado, cozido e purificado pelo fogo interior. Ele é o instinto bruto e criador, a vontade soberana e inflamada que consome impiedosamente tudo o que é passivo e letárgico. O iniciado que cruza o caminho do Leão sabe que terá de enfrentar a ferocidade das suas próprias paixões antes de alcançar qualquer vislumbre de clarividência.
Mas a imponente presença do azul oxigenado nesta fenda cósmica ensina-nos, pela via da luz, o princípio fundamental do equilíbrio hermético. Se a Grande Obra fosse feita exclusivamente pelo fogo devorador e impulsivo, a matéria acabaria por se extinguir na sua própria e cega voracidade. A coroa anil que paira sobre a fera encarna a água celestial, o mercúrio filosófico e purificador que arrefece, contém, nutre e concede a verdadeira forma ao ímpeto destrutivo do leão. É o casamento necessário, profundo e silencioso, da paixão mais violenta com a sabedoria mais serena.
Este Fragmento resgatado do cosmos recorda-nos, assim, que a verdadeira força do espírito não reside na combustão caótica e descontrolada, mas na capacidade superior de sustentar e harmonizar a dualidade. O Leão Cósmico de Cefeu permanece suspenso no éter negro, o seu rugido silencioso eternizado na película da luz, provando de forma inquestionável que o acto de criação mais majestoso exige, em absoluta simultaneidade, o fogo implacável que destrói as velhas prisões da forma e o sopro subtil que pacifica e consolida o espírito finalmente renascido.
Registo efectuado a 28, 29 e 30 de Junho, e 1 de Julho de 2026, a partir do Umbral de Brogueira.

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