Ela não fala com voz própria.
É o primeiro, o mais próximo, e o mais incompreendido dos mestres. Vemo-la como uma rocha morta, uma companheira silenciosa. Mas ela é a chave de toda a estrutura.
A sua luz é memória. É o eco da Luz que vem de longe, filtrada, arrefecida e devolvida à Terra. Ela é o Espelho. E como todo o espelho, reflecte-nos a nós próprios: o que está oculto, o que ferve por baixo da superfície.
O seu nascimento foi uma violência. Foi arrancada do nosso próprio corpo, do barro primordial de que somos feitos, numa colisão que moldou os eixos do mundo. Ela é, literalmente, o nosso passado a orbitar-nos. É o fantasma de poeira da Terra que foi, e por isso comanda a memória, o instinto, o que não precisa de ser pensado.
Ela é a Senhora das Águas de Baixo.
Não por acaso, o Espírito pairava sobre as águas no Abismo. É ela quem puxa e solta os oceanos. É ela quem rege o fluxo e o refluxo, a maré que sobe e a maré que desce. Ela dita o ritmo. E tal como move o grande oceano salgado, ela move a matriz líquida que carregamos dentro de nós. Ela é a regente do sangue e do sonho.
Olhamos para ela e vemos um ciclo. Uma dança em três tempos.
Primeiro, o Katalambanó — a escuridão que tenta conter a luz. É a Nova Face, a semente escondida na terra preta. O Ponto Zero onde tudo começa. É a Anciã, a que sabe, Hécate na encruzilhada.
Depois, a Irrupção — a Donzela de prata. O crescente fino como uma lâmina. A Luz a escapar ao abraço. A promessa. É Ártemis, a caçadora, focada, ainda por amadurecer.
E então, a Plenitude — o disco cheio, o espelho virado por completo para o Sol e para nós. O momento de clareza total, por vezes brutal. A Mãe, Selene, grávida de luz.
Mas esta plenitude é uma ilusão que dura apenas um instante. O seu destino é esvaziar-se, retornar à sombra para recomeçar. Ela ensina-nos que a Sabedoria não está na luz constante, mas no processo de a ganhar e perder.
Ela é o Umbral. A fronteira.
Os antigos sabiam que ela separava o mundo sublunar – o nosso reino, o da mudança, da geração e da corrupção – do mundo supralunar, o éter perfeito e imutável das estrelas fixas.
Ela é a Guardiã do Portal.
Por isso, ela só nos mostra uma face. O seu maior segredo é o lado que perpetuamente nos oculta. Não por vergonha, mas por protecção. É o véu que nos separa do Infinito. A face oculta é a prova de que há sempre algo que as trevas conseguem conter, algo que não é para ser visto daqui.
Não se pode ir “para fora”, para as profundezas do Cosmos, sem primeiro atravessar o seu reino. Para decifrar o Fogo das galáxias distantes, é preciso primeiro compreender a Água deste Espelho de prata.
Ela é o primeiro Fragmento. A primeira chave.
O seu número não é o Um. O seu número é o Dois — a dualidade, o reflexo, a parceria. E também o Três — as suas faces visíveis. E o Quatro — o seu ciclo completo.
Ela não pede para ser explicada. Pede para ser sentida.
O seu silêncio é a sua linguagem. As suas crateras são as cicatrizes da sua memória. E a sua luz fria é o primeiro convite para “A Busca”.

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