Esquecemos o que a Criação realmente é.
Nas histórias que contamos às crianças, o “Haja Luz” é um momento pacífico, um interruptor divino que se liga no silêncio. Mas este Fragmento, suspenso na bainha do Grande Caçador, conta a verdadeira história.
A criação é violência. É um acto de ruptura. É o Fogo a rasgar o tecido do Vácuo.
A olho nu, os antigos viam aqui apenas uma mancha difusa, a “estrela” do meio na Espada de Órion. Enganaram-se. Não é uma estrela. É o lugar onde as estrelas são forjadas. É o útero e o cadinho da nossa galáxia local.
Este é o exemplo supremo da Prima Matéria em acção.
O que a lente capta aqui é o Caos primordial. Nuvens inimagináveis de hidrogénio frio, poeira de éons passados, os restos de deuses estelares que morreram antes de nós. É o barro do Abismo, a substância passiva, escura e pesada, à espera do Sopro.
E o Sopro veio.
No coração desta forja, escondido atrás de véus de gás incandescente, reside o Trapézio. Quatro (e mais) titãs. Estrelas jovens, maciças, de uma arrogância incalculável. Elas vivem depressa e ardem com uma fúria ultravioleta que nós, na Terra, mal conseguimos conceber.
Elas são o Fiat Lux em tempo real.
Não é a sua gravidade que molda esta nuvem. É a sua Luz. É a pressão pura da sua radiação que está a empurrar a Prima Matéria, escavando a caverna luminosa que vemos na fotografia. Elas estão a “soprar” a bolha, a corroer a escuridão que as tenta envolver.
Olhem atentamente para as zonas escuras da imagem. Aquilo não é vazio. São os “glóbulos”, casulos densos de gás frio que resistem à luz. E dentro de cada um deles, o milagre está a repetir-se: a gravidade está a vencer, o gás está a colapsar, e uma nova proto-estrela está a acender-se.
Estamos a testemunhar a concepção. Milhares de sistemas solares, talvez com os seus próprios planetas, os seus próprios futuros observadores, estão a nascer neste momento, na fornalha.
A Astrologia Velada sabe onde isto se encontra.
Não é por acaso que esta forja está localizada no Caçador, o Gigante. E mais especificamente, na sua Espada.
A espada é o instrumento da divisão. Ela separa. A Criação começa com a separação: a luz das trevas, as águas de cima das águas de baixo. A energia de Órion é fálica, afirmativa, perigosa. É a vontade que se impõe ao caos para gerar ordem.
Os Egípcios, mestres da Gnose estelar, viam nesta constelação a alma de Osíris – o deus morto e ressuscitado, o senhor dos ciclos de geração e corrupção. Para eles, esta nebulosa não era apenas uma nuvem; era o portal do Duat, o submundo, o local onde a alma do rei viajava para se tornar uma estrela.
É o local da regeneração pelo fogo.
Este Fragmento ensina-nos a lição mais difícil da Busca: a Luz não é apenas esclarecimento. A Luz queima. Para nascer, para criar algo novo – seja uma estrela, uma ideia ou um novo “eu” – é preciso suportar a temperatura da Forja. É preciso que a velha matéria seja consumida para que a nova forma possa brilhar.
Messier 42 (M42) é o lembrete constante no nosso céu de inverno: nós somos feitos deste mesmo processo. Somos poeira de estrelas que foi “cozinhada” numa fornalha semelhante a esta, há muito tempo.
E a luz que trazemos dentro de nós é um fragmento dessa mesma violência criadora, ainda a tentar empurrar as nossas próprias trevas interiores.

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