Galáxia de Andrómeda - Messier 31; M31; NGC224 (30 Nov 2025)

O Grande Espelho do Destino

Se a Lua é o espelho da Terra, esta espiral de luz é o espelho da nossa própria Galáxia.

Ao contemplarmos este Fragmento, estamos a cometer um acto de narcisismo cósmico. Estamos a olhar para fora para vermos como somos por dentro. Ela é a nossa gémea, maior, mais velha, talvez mais sábia, flutuando na tinta negra do Abismo.

Os antigos viam nela a Princesa Acorrentada do mito. Punida pela vaidade da mãe, amarrada ao rochedo, oferecida ao monstro marinho. Mas as correntes que a prendem não são de ferro. São de gravidade.

E aqui reside a Grande Cifra deste objecto, o segredo que distingue Andrómeda de quase tudo o resto que observamos.

No universo em expansão, onde tudo foge de tudo, onde a Lei geral é o afastamento e o arrefecimento, Andrómeda é a excepção. Ela não foge. Ela aproxima-se.

A sua luz sofre o Desvio para o Azul.

Ela está a cair na nossa direcção, e nós na dela. Uma queda livre de dois titãs através do vazio intergaláctico, a uma velocidade que desafia a compreensão. A “corrente” da gravidade prende-nos uma à outra com uma força que supera a própria expansão do tecido do espaço.

Isto não é uma colisão. É uma atracção. É o Desejo na sua forma mais primordial e massiva.


A Astrologia Esotérica ensina-nos que o destino final de todas as dualidades é a união. O Hieros Gamos — o Casamento Sagrado. O Sol e a Lua. O Enxofre e o Mercúrio. Nós e Ela.

O que a lente capta aqui é uma noiva vestida de luz estelar, a correr para o altar a 110 quilómetros por segundo.

Dentro dela, residem um bilião de estrelas. Um bilião de sóis. Um bilião de histórias possíveis, civilizações que nasceram e morreram enquanto a luz que agora atinge o sensor da câmara viajava pelo vazio durante dois milhões e meio de anos. Quando olhamos para ela, não vemos o presente. Vemos um fantasma do Pleistoceno. Vemos a luz que partiu quando os primeiros hominídeos ainda aprendiam a usar a pedra.

Mas o futuro está escrito na sua trajectória.

Daqui a éons, o céu da Terra não terá trevas. Será preenchido pela sua chegada. As duas espirais fundir-se-ão. O caos será absoluto, estrelas serão arremessadas para o exílio, nuvens de gás colidirão reacendendo a Forja de Órion numa escala galáctica. O “Eu” (A Via Láctea) e o “Tu” (Andrómeda) deixarão de existir.

Haverá apenas o “Nós”. Uma nova galáxia elíptica, vasta, velha e calma. Milkomeda.

Este Fragmento é, portanto, um Memento Mori para a nossa própria casa cósmica, mas também uma promessa de transcendência. Lembra-nos que nada, nem mesmo as ilhas de luz mais gigantescas, existe em isolamento.

O destino final não é a solidão. É a fusão.

Ela é a Princesa, mas também é o Monstro que nos vai devorar. E nesse abraço fatal, nessa alquimia de proporções divinas, encontraremos a nossa verdadeira forma.

Olhem para ela com reverência. Ela é o Abismo que olha para nós de volta, e que sorri, porque sabe que no fim, seremos Um.


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